Navega, Coração
Kleiton e Kledir
Nos naufrágios que o destino
Vem tentando me pregar
Vou nadando meus caminhos devagar
Desde os tempos de menino
Aprendi a navegar
Com as Bússolas que eu mesmo inventar
Hoje eu sei as armadilhas
E os segredos desse mar
Que viver não é preciso nem será (...)
Hiram Reis e Silva, Bagé, RS, 03 de dezembro de 2011.
- Minhas Solitárias Jornadas
(Professora Silvana Schuler Pineda)
Diletos
e curiosos amigos, perguntam-me se a solidão não me assalta quando
empreendo minhas longas e solitárias jornadas pelos mágicos caudais.
Mais uma vez respondo que a natureza esfuziante, plena de imagens e sons
me envolve de tal maneira que nos amalgamamos em uma única entidade. De
repente sou parte integrante do Todo, um pequenino elo desta imensa
corrente chamada Universo, desta Orbe que me acaricia e acalenta. Como
posso sentir solidão se faço parte de um contexto maior que me ampara,
instrui e protege?
- Jornadas Mágicas
Minhas
expedições são de puro êxtase, navego imerso em um mundo mágico
tentando decifrar suas sutis mensagens. As marcas do tempo estão por
toda a parte é preciso interpretá-las, quantas e quantas vezes o
anacronismo do tempo se faz presente. Contemplando formações rochosas no
momento presente podemos viajar no tempo imaginando o longínquo
pretérito em que elas se formaram e depreender suas mutações futuras. A
geologia, como tantas outras ciências, nos permite conhecer o passado,
para entender o presente e prever o futuro.
- Jornadas de Humildade
O
navegante precisa estar atento, em cada canto existe um conto, em cada
criatura uma história. Os ensinamentos partem das gentes e das coisas
mais simples e é preciso saber ouvi-los. É mais importante senti-los do
que falar, é preciso humildade para com eles aprender, a sabedoria ao
contrário da cultura não está nos livros. É preciso ser capaz de
processar o conhecimento para se atingir a sabedoria. Os antigos
naturalistas estrangeiros que percorreram nossas paragens raramente
tinham essa visão tão necessária. Herdei esse comportamento de meu
saudoso pai Cassiano Reis e Silva. Acompanhando-o, nas caçadas e
pescarias que empreendíamos nas terras gaúchas, eu prestava a atenção
quando ele conversava de igual para igual com proprietários ou com peões
das fazendas. O mesmo respeito e a mesma capacidade de ouvir antes de
falar, de ser capaz de aprender antes de se propor a ensinar.
- Jornada de Sonho
A
Descida do Rio Madeira está longe de ser a última de minhas jornadas.
Como já disse, mais de uma vez, continuarei remando e reportando a
história dessas artérias vivas do nosso país continente enquanto houver
força nos meus braços. Minha jornada de sonho, talvez nunca se realize,
por falta de aporte financeiro, trata-se da travessia pelos Rios
Acre/Purus/Solimões de Rio Branco, no Estado Acre, até Manaus, no Estado
Amazonas. O Rio Acre de Rio Branco, AC, até Boca do Acre, AM, possui
310 km de extensão, o Rio Purus, de Boca do Acre até sua foz no Solimões
se estende por 2.550 km, e da foz até Manaus são 200 km pelo Rio
Solimões. São 3.060 km de extensão que gostaríamos de percorrer em seis
meses, pescando, colhendo e mapeando lendas e histórias do mais sinuoso e
um dos mais lendários Rios do Planeta Terra.
- Rio Purus
(Euclides da Cunha)
O
Purus tem curso extremamente sinuoso, com curvas muito fechadas, cujo
leito é periodicamente alterado principalmente na época das cheias,
determinando modificações no seu leito e, consequentemente, no seu canal
de navegação. Outros componentes adversos são os bancos de areia,
troncos de árvores que em algumas ocasiões podem obstruir a passagem. Na
seca ocorre a formação de lagoas, em forma de ferradura, pelo
isolamento de canais ao longo do Rio. O Purus nasce nas colinas do Arco
Fitzcarrald, Serra da Contamana (região de Ucayali), no Peru, há 500m de
altitude e percorre cerca de 3.300 km até sua foz no Solimões. O Rio
Purus entra no Brasil pelo Estado do Acre, no Município de Santa Rosa do
Purus, passando pelo Município de Manoel Urbano, entrando no Estado do
Amazonas pelo Município de Boca do Acre onde recebe as águas do Rio Acre
e segue pelo Estado do Amazonas até desaguar no Rio Solimões.
- Lendário Purus
(Euclides da Cunha)
Envolto
em mistérios e fantásticas lendas, muitas delas motivadas pelos temores
dos antigos desbravadores europeus, outras tantas pelos nativos, seus
antigos habitantes e guardiões, o Purus vem cativando a memória
ancestral dos povos através dos tempos sem perder seu encanto e seu
carisma carregado de fantasias que o alimentam desde seu berço nos
contrafortes andinos até a foz no Solimões.
Frei Gaspar de Carvajal
Gaspar de Carvajal, em 03 de junho de 1542, relatou no seu manuscrito intitulado “Relación del descubrimiento del famoso río grande de las Amazonas” a passagem de Orellana pela foz do Rio Purus e as aldeias à jusante de sua foz no Solimões:
(...)
viemos a encontrar com outro Rio mais caudaloso e maior, pelo braço
direito; era tão grande que na entrada havia três ilhas, razão pela qual
o denominamos Rio da Trindade (Purus); além disso, na junção dos dois
rios, havia muitos e populosos povoados na bela terra de Omágua, e por
serem muitas as aldeias e tão grandes e com muita gente, o Capitão não
quis aportar.
Padre Cristobal de Acuña
Acuña, em 1639, menciona no Capítulo LXIII - O Rio dos Gigantes, de sua crônica “Novo descobrimento do Rio das Amazonas”:
Está
povoado por várias nações (...) e por fim e remate de todos, estão os
Curigueré. De acordo com informações de pessoas que os viram e que se
ofereciam a levar-nos a suas terras, são eles gigantes de dezesseis
palmos de altura, muito valentes, andam nus e trazem grandes pátenas de
ouro nas orelhas e narizes.
Guillaume d’Isle
D’Isle, geógrafo da Academia Real de Ciências de Paris, em 1703, fez um hipotético esboço cartográfico do Purus (mapa do “Rio do Omopalens”). D’Isle anexou, ao esboço, um comentário sobre os povos que nele habitavam:
(...) dos quais se diz serem gigantes ricos em ouro, habitantes a dois meses de caminho da embocadura do Rio.
Carl Friedrich Phillipp von Martius
O naturalista Martius, na sua “Viagem pelo Brasil”, em 1817/1820, escreve que:
(...)
todos ainda em estado de absoluta selvageria e conhecidos por sua
perfídia. Eles colhem aqui abundantes plantas medicinais, o cacau e a
salsaparrilha, e permutam com as expedições que frequentam o Rio, onde
as duas partes contratantes se apresentam de armas na mão. Ninguém se
aventura ainda a fundar missões no Purus.
- O Encontro dos Ícones
Em outubro de 1905, embarcam no vapor Rio Branco, que estava ancorado na “Boca do Acre”,
confluência do Rio Acre com o Purus, dois ícones da nacionalidade
brasileira, Plácido de Castro e Euclides da Cunha. Plácido de Castro
tinha comandado o vitorioso Movimento Revolucionário Acreano, que
resultou na incorporação das terras bolivianas ao Brasil. Euclides da
Cunha chefiara a “Comissão Brasileira de Reconhecimento do Alto Purus”,
cuja missão era mapear o Rio Purus, desde a foz, no Solimões, até suas
cabeceiras, definindo as fronteiras do país com a Bolívia e o Peru. A
viagem da Boca do Acre a Manaus durou uma semana e neste período
aconteceu o encontro histórico. Euclides da Cunha solicitou a Plácido de
Castro que redigisse um histórico da campanha, desde 1902, que culminou
com a conquista do Acre. Plácido escreveu os apontamentos a lápis na
própria caderneta de Euclides, e manteve longas conversas com o
escritor, relatando, além da campanha pela anexação, a dinâmica da
extração da borracha, seu ciclo produtivo e a vida nos seringais.
– Livro
O livro “Desafiando o Rio–Mar – Descendo o Solimões” está sendo comercializado, em Porto Alegre, na Livraria EDIPUCRS – PUCRS, na rede da Livraria Cultura (http://www.livrariacultura. com.br) e na Livraria Dinamic – Colégio Militar de Porto Alegre. Para visualizar, parcialmente, o livro acesse o link:
http://books.google.com.br/ books?id=6UV4DpCy_VYC& printsec=frontcover#v=onepage& q&f=false.
http://books.google.com.br/
Coronel de Engenharia Hiram Reis e Silva
Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA)
Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS)
Vice-Presidente da Academia de História Militar Terrestre do Brasil/Rio Grande do Sul (AHIMTB-RS)
Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS)
Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN)
E–mail: hiramrs@terra.com.br
2 comentários:
Olá Klauber Cristofen Pires. Costumo ler seus artigos, mas, não farei comentários sobre eles. Gostaria de parabenizá-lo pela foto a esquerda. Que bela foto, que bela família. Parabéns!!!! Míriam
Olá, Mírian,
Muito obrigado. E continue acompanhando o LIBERTATUM. Que Deus proteja você e sua família também.
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