Uma Relação de Amor e Ódio: O Nacionalismo e a Revolução Francesa
Se é verdade que a Revolução Francesa destruiu o ancien régime e se transformou num alvo permanente a atacar para muitos nacionalistas que ainda a vêem como a origem de todos os males contemporâneos, também é verdade que foi a Revolução Francesa que lançou as sementes do Nacionalismo como movimento político-ideológico devidamente estruturado e organizado.
Não existia Nacionalismo como fenómeno político organizado antes da Revolução Francesa e não existia, porque também não fazia falta a sua existência. A França e basicamente toda a Europa, eram então governadas por monarquias, onde não existia ainda a praga apócrifa dos partidos políticos, que são a causa contínua do falhanço das democracias liberais no Mundo Contemporâneo. Também não existia nos regimes políticos do ancien régime uma concepção de Estado-Nação tal como a conhecemos hoje e o povo em geral encontrava-se completamente afastado do processo político.
Com a Revolução Francesa introduziu-se a ideia "revolucionária" de que o Estado-Nação pertencia ao povo e de que este por sua vez, tinha um papel primordial no mesmo. Não foram os franceses que desenvolveram esta ideia do nada, pois a mesma já tinha raízes naRevolução Inglesa e se quisermos ir mais longe, podemos seguir a origem da mesma até à Grécia Antiga.
Anteriormente à Revolução Francesa, a fidelidade de um povo não era para com uma dada Nação ou Pátria, mas para com um determinado monarca. No caso da França e não só, os monarcas eram equiparados ao Estado, podendo-se mesmo dizer que o Rei e o Estado se equivaliam, sendo uma coisa inseparável e indistinguível da outra. Hoje, esta ideia pode parecer à maioria de nós uma coisa bastante bizarra para se dizer o mínimo, mas o facto é que esta estruturação do poder era aceite pela maioria da população como sendo algo perfeitamente normal.
A Revolução Francesa veio alterar radicalmente a forma como o poder se organizava e foi mais além, alterando a própria relação dos cidadãos para com os órgãos de poder. Foi a Revolução Francesa que introduziu o conceito da "cidadania" e enfatizou o conceito de que o Estado e a Nação pertencem aos cidadãos e é este que deve responder perante os mesmos e não o contrário. Do ponto de vista militar também houve consequências, sendo que se começaram a organizar exércitos nacionais que já não combatiam apenas por um monarca, mas sim, por um dado Estado-Nação. A Revolução Francesa em termos de repercussões por toda a Europa, quando não os eliminou pura e simplesmente, transformou os monarcas num mero acessório sem grande poder.
Em Portugal, constuma-se muitas vezes culpar a Revolução Francesa pelas posteriores invasões napoleónicas que devastaram o nosso País e se é verdade que sem Revolução Francesa, provavelmente nunca teria ocorrido a trágica Guerra Peninsular, julgo que é injusto atirar as culpas de todos os nossos males para cima de uma Revolução cujos objectivos políticos, se forem analisados atentamente, estão ideologicamente muito mais próximos da direita nacionalista, do que da esquerda marxista. Goste-se ou não dos mesmos, o facto é que os revolucionários de 1789, voluntária ou involuntariamente, acabaram por lançar as pedras do Nacionalismo contemporâneo como fenómeno político organizado.
João José Horta Nobre
4 de Outubro de 2016

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