sexta-feira, 3 de junho de 2016

O Primeiro Grande Saque Amazônico (I)


Por Armando Soares


O exame detalhado da bibliografia que trata do período que vai da descoberta do Brasil até o conhecimento da seringueira e o início da produção da borracha, mostra que a transferência da atividade econômica da borracha para as colônias estrangeiras no Sudeste Asiático e o domínio da produção, comércio e consumo, não se deu por acaso, foi consequência de um trabalho primoroso de pesquisa e avaliação do poder econômico da borracha como matéria-prima geradora de desenvolvimento e ganhos excepcionais. Até o presente momento, o que se verifica é que historiadores se referem aos pesquisadores e cientistas europeus como se fossem úteis aos interesses do Brasil e a da Amazônia. A história sem máscara mostra ao contrário, eles foram úteis e fundamentais para o fortalecimento de países europeus e para a criação de países ricos usando a borracha e outros produtos da biodiversidade amazônica, antes simples floretas inóspitas. Por mais competentes que esses “cientistas e pesquisadores” fossem não deixaram de ser agentes do colonialismo predador, saqueadores de produtos da biodiversidade amazônica. As suas homenagens as suas pessoas se deve ao eufemismo de cientistas e pesquisadores tupiniquins que por não terem contribuído até o presente com trabalhos que contribuam para o desenvolvimento econômico da região, se regalam com o feito estrangeiro, e, pior, facilitam a esterilização econômica da Amazônia se unindo aos órgãos nazifascistas que consideram os produtores rurais nocivos.





                Uma verdade surpreendente que precisa ser conhecida dos amazônidas e de todos os brasileiros para entenderem a engenharia da Natureza e despertarem para a pequenez do homem diante da natureza.

                O rio Amazonas antes de correr para o Atlântico, corria para o Pacífico. Isto deve surpreender os ambientalistas diante de sua ignorância a respeito de uma região que se dizem conhecedores, donos e tutores. O olhar histórico, segundo Evaristo Eduardo de Miranda, determina o entendimento da situação atual e a busca de saídas sustentáveis. Como era a Amazônia quando o grande equatorial ainda corria no sentido oeste e desaguava no Pacífico? Indaga o doutor em ecologia Evaristo Miranda e explica: durante milhões de anos, após separar-se da África, a América do Sul ficou isolada no meio do oceano como uma ilha imensa. Flora e fauna se desenvolveram de um modo muito diferente da África, Ásia, Europa e América do Norte. A terra firme não é firme, segundo Miranda, os continentes nunca estiveram, nem estão parados. Movimentam-se, numa escala geológica de tempo. Eles são como placas ou imensas jangadas flutuando num viscoso mar de lava. O fenômeno é conhecido como deriva continental e o mecanismo causal é chamado pelos geólogos de tectônica de placas. O bloco continental da América do Sul destacou-se e afastou-se totalmente da África e da América do Norte há aproximadamente 60 milhões de anos. A região amazônica era um ambiente de sedimentação e os rios equatoriais corriam em sentido oposto ao atual, desaguando no Pacífico. A inversão se deu quando a jangada continental da América do Sul continuava seu deslocamento para oeste. Seu “atrito”, passando por cima da placa tectônica de Nazca, existente sob o oceano Pacífico, foi causando o surgimento da Cordilheira dos Andes, com sua longa cadeia de vulcões. Os rios equatoriais inverteram progressivamente seus cursos em direção ao novo oceano surgido entre a África e as Américas, o Atlântico. Inicialmente, o primitivo rio Amazonas seguiu um caminho próximo do traçado atual do rio Orenoco, desaguando no mar das Antilhas. Mais tarde inverteu completamente seu curso, assumindo a posição e direção atual, como que acompanhando o traçado da linha do Equador. E, lentamente, a América do Sul, aproximou-se na América do Norte. O encontro dessas duas massas causou o soerguimento da América Central e do istmo do Panamá, também chamado de Estreito de Darien, no prolongamento da cordilheira dos Andes. Foi a cerca de dois milhões e meio de anos. Mais uma vez, os dois blocos continentais americanos se uniram. Os continentes têm se unido e separado mais de uma vez durante os diversos períodos geológicos. Esse cenário resumido explica como surgiram os animais, plantas, florestas e povos na Amazônia que conhecemos, cenário necessário para que os amazônidas e brasileiros conheçam a verdadeira Amazônia e como a natureza constrói suas regiões e paisagens. A presença do homem no Brasil tem como referência o sítio de Pedra Pintado na cidade de Monte Alegre (Pará) que indica a ocupação do homem nas florestas e cerrado amazônico por volta de 11.300 anos. A Amazônia intacta observa Evaristo Miranda, como imaginam alguns, só pode ser considerada como tal antes dessa chegada das populações humanas. A partir da chegada dos humanos, cuja data os arqueólogos tendem a multiplicar em diversos eventos, origens e recuar no tempo, progressivamente o espaço natural da Amazônia passa a ser objeto de uso, controle, acesso, exploração, mudança, disputa, transferência e até transmissão entre grupos humanos cada vez mais numerosos e organizados, com diferentes histórias e patrimônios culturais. O espaço amazônico passou a ser uma natureza humanizada, um território social. Em meio a diversas flutuações climáticas, esses primeiros povoamentos humanos foram modelando as paisagens naturais da Amazônia, e com consequências para o ambiente. As forças geológicas também continuaram seu trabalho. Há apenas 11 mil anos, por exemplo, a Ilha do Marajó ainda fazia parte do continente e era atravessado pelo Rio Tocantins, que desaguava no Amazonas. Uma falha sísmica criou o Rio Pará e levou o Tocantins a correr pelo caminho atual, em direção ao Nordeste, isolando e criando a Ilha. Miranda destaca em seu trabalho para um dado importantíssimo de que a floresta amazônica é relativamente recente, antes restrita ao longo dos rios e eixos de drenagem. Quem quiser saber mais da história desconhecida da Amazônia, leia o livro “Quando o Amazonas corria para o Pacífico”, de Evaristo Eduardo de Miranda. Sobre essa história fascinante basta essas informações para enriquecer o processo histórico amazônico, não sem antes deixar registrado para o desespero dos ambientalistas que em cerca de cem anos, entre o final do século XIX e a década de sessenta no século XX, noruegueses e ingleses conseguiram dizimar as populações de focas e baleias da Antártida, graças ao barco a motor e ao canhão disparador de arpões. O óleo das baleias iluminava as cidades europeias, os casacos de pele de foca eram moda e um massacre devastador de mamíferos marinhos ocorria na Antártida. Apesar da dizimação dos mamíferos, nada mudou na Terra.

                Destaque para alguns “pesquisadores e cientistas” que evidenciam o interesse pela borracha no tempo. Um exército de cientistas que facilitaram saques da diversificada biodiversidade amazônica, visitada a título de enriquecer a ciência (deles).




                Charles-Marie de La Condamine, francês, com dez cientistas e uma considerável equipe visitou a Amazônia em 1736. Levou informações sobre diversas plantas medicinais, inclusive o quinino, e espantou-se com as propriedades da borracha – substância que se referiu como “a resina chamada cahout-chou”: “o que lhe dá notável elasticidade”; La Condamine escreveu no seu diário: é como os índios fazem garrafas que não são fáceis de quebrar, botas e pratos fundos que podem se tornar rasos, e quando não mais sob pressão, readquirem o antigo formato. Observou e admirou as propriedades do curare e outros venenos da floresta. A borracha que Condamine levou na sua bagagem para a Europa provocou grande interesse devido as suas virtudes. Interesse acima de tudo de ordem econômico. Cristóvão Colombo, antes do descobrimento do Brasil (1500), também conheceu a borracha em mãos de índios que brincavam com uma “bola que pulava”. Para eleger uma data referencial do interesse pela borracha como matéria-prima, vou tomar como ponto de partida a data de 1736, sem, contudo, deixar de considerar qualquer data anterior. A data 1736 vai servir para medir o tempo em que a Amazônia, de fato, teve seu espaço dominado através da produção da borracha, assim como a montagem da civilização amazônica, ou seja, 176 anos (1736 a 1912, data que considero como a da entrada no mercado da borracha produzida em seringais cultivados de colônias asiáticas).

                Em meados do século XIX, chegou à Amazônia um trio de naturalistas ingleses, Alfred Russel Wallace, o entomologista Henry Walter Bates, e Richard Spruce um botânico. Bates coletou mais de 14 mil espécies de insetos e animais, oito mil delas inteiramente novas para a ciência, despachando-as para Londres. Spruce produziu artigos em The Phytologist, que passou a ser publicado a partir de 1841, e despertaram a atenção dos curadores dos Jardins Kew. Através de um deles, Sir William Hooker, Spruce conheceu o botânico colecionador George Benthan. Com essas expedições e envolvendo Kew (local onde foram enviadas por Wickam as sementes da seringueira), pode-se estabelecer o projeto de dominação da atividade econômica da borracha. Uma das mais extensas investigações científicas da Amazônia, a realizada por um indivíduo, Spruce, num total de quinze anos. Seu trabalho despertou o interesse de outros exploradores, sendo a Amazônia reconhecida como a Meca dos botânicos do mundo inteiro, ou seja, em outras palavras a Meca do saque programado e consentido, uma vez que nenhum desses trabalhos exploratórios trouxe benefício econômico e social à Amazônia e aos brasileiros. Spruce descrevendo as características da floresta expos a vulnerabilidade da região, por maquiavelismo ou burrice, o que contribuiu para travar o desenvolvimento da agricultura por longo período. Entretanto, Spruce era um “apaixonado” pela Amazônia, chegando a concordar com Sir Walter Raleigh, que convenceu a Rainha Elizabeth I de que a Inglaterra deveria destruir e substituir o império americano espanhol, porém mais tarde caiu em desgraça junto ao seu sucessor, Jaime I, por não ter encontrado ouro na Guiana. “Quantas vezes” escreveu Spruce, “tenho pena de a Inglaterra não possuir o magnífico vale amazônico, em vez de ocupara Índia!”. “Se aquele idiota do Jaime, em vez de prender Raleigh e depois mandar decapitá-lo, tivesse insistido e lhe fornecesse navios, dinheiro e homens até conseguirem formar uma colônia permanente num dos grandes rios americanos, não tenho dúvidas de que todo o continente americano estaria hoje nas mãos dos ingleses”. Em 1864, Spruce verificou mudança notável na Amazônia com o início da era da borracha, voltou à Inglaterra, e morreu em 1893.

Armando Soares – economista


                

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