O Primeiro Grande Saque Amazônico (I)
Por Armando Soares
O exame detalhado da bibliografia que
trata do período que vai da descoberta do Brasil até o conhecimento da
seringueira e o início da produção da borracha, mostra que a transferência da
atividade econômica da borracha para as colônias estrangeiras no Sudeste
Asiático e o domínio da produção, comércio e consumo, não se deu por acaso, foi
consequência de um trabalho primoroso de pesquisa e avaliação do poder
econômico da borracha como matéria-prima geradora de desenvolvimento e ganhos
excepcionais. Até o presente momento, o que se verifica é que historiadores se
referem aos pesquisadores e cientistas europeus como se fossem úteis aos
interesses do Brasil e a da Amazônia. A história sem máscara mostra ao
contrário, eles foram úteis e fundamentais para o fortalecimento de países
europeus e para a criação de países ricos usando a borracha e outros produtos
da biodiversidade amazônica, antes simples floretas inóspitas. Por mais
competentes que esses “cientistas e pesquisadores” fossem não deixaram de ser
agentes do colonialismo predador, saqueadores de produtos da biodiversidade
amazônica. As suas homenagens as suas pessoas se deve ao eufemismo de
cientistas e pesquisadores tupiniquins que por não terem contribuído até o presente
com trabalhos que contribuam para o desenvolvimento econômico da região, se
regalam com o feito estrangeiro, e, pior, facilitam a esterilização econômica
da Amazônia se unindo aos órgãos nazifascistas que consideram os produtores
rurais nocivos.

Uma
verdade surpreendente que precisa ser conhecida dos amazônidas e de todos os
brasileiros para entenderem a engenharia da Natureza e despertarem para a
pequenez do homem diante da natureza.
O rio
Amazonas antes de correr para o Atlântico, corria para o Pacífico. Isto deve
surpreender os ambientalistas diante de sua ignorância a respeito de uma região
que se dizem conhecedores, donos e tutores. O olhar histórico, segundo Evaristo
Eduardo de Miranda, determina o entendimento da situação atual e a busca de saídas
sustentáveis. Como era a Amazônia quando o grande equatorial ainda corria no
sentido oeste e desaguava no Pacífico? Indaga o doutor em ecologia Evaristo
Miranda e explica: durante milhões de anos, após separar-se da África, a
América do Sul ficou isolada no meio do oceano como uma ilha imensa. Flora e
fauna se desenvolveram de um modo muito diferente da África, Ásia, Europa e
América do Norte. A terra firme não é firme, segundo Miranda, os continentes
nunca estiveram, nem estão parados. Movimentam-se, numa escala geológica de
tempo. Eles são como placas ou imensas jangadas flutuando num viscoso mar de
lava. O fenômeno é conhecido como deriva continental e o mecanismo causal é
chamado pelos geólogos de tectônica de placas. O bloco continental da América do
Sul destacou-se e afastou-se totalmente da África e da América do Norte há
aproximadamente 60 milhões de anos. A região amazônica era um ambiente de
sedimentação e os rios equatoriais corriam em sentido oposto ao atual,
desaguando no Pacífico. A inversão se deu quando a jangada continental da
América do Sul continuava seu deslocamento para oeste. Seu “atrito”, passando
por cima da placa tectônica de Nazca, existente sob o oceano Pacífico, foi
causando o surgimento da Cordilheira dos Andes, com sua longa cadeia de
vulcões. Os rios equatoriais inverteram progressivamente seus cursos em direção
ao novo oceano surgido entre a África e as Américas, o Atlântico. Inicialmente,
o primitivo rio Amazonas seguiu um caminho próximo do traçado atual do rio
Orenoco, desaguando no mar das Antilhas. Mais tarde inverteu completamente seu
curso, assumindo a posição e direção atual, como que acompanhando o traçado da
linha do Equador. E, lentamente, a América do Sul, aproximou-se na América do
Norte. O encontro dessas duas massas causou o soerguimento da América Central e
do istmo do Panamá, também chamado de Estreito de Darien, no prolongamento da
cordilheira dos Andes. Foi a cerca de dois milhões e meio de anos. Mais uma
vez, os dois blocos continentais americanos se uniram. Os continentes têm se
unido e separado mais de uma vez durante os diversos períodos geológicos. Esse
cenário resumido explica como surgiram os animais, plantas, florestas e povos
na Amazônia que conhecemos, cenário necessário para que os amazônidas e brasileiros
conheçam a verdadeira Amazônia e como a natureza constrói suas regiões e
paisagens. A presença do homem no Brasil tem como referência o sítio de Pedra
Pintado na cidade de Monte Alegre (Pará) que indica a ocupação do homem nas
florestas e cerrado amazônico por volta de 11.300 anos. A Amazônia intacta
observa Evaristo Miranda, como imaginam alguns, só pode ser considerada como
tal antes dessa chegada das populações humanas. A partir da chegada dos
humanos, cuja data os arqueólogos tendem a multiplicar em diversos eventos,
origens e recuar no tempo, progressivamente o espaço natural da Amazônia passa
a ser objeto de uso, controle, acesso, exploração, mudança, disputa,
transferência e até transmissão entre grupos humanos cada vez mais numerosos e
organizados, com diferentes histórias e patrimônios culturais. O espaço
amazônico passou a ser uma natureza humanizada, um território social. Em meio a
diversas flutuações climáticas, esses primeiros povoamentos humanos foram
modelando as paisagens naturais da Amazônia, e com consequências para o
ambiente. As forças geológicas também continuaram seu trabalho. Há apenas 11
mil anos, por exemplo, a Ilha do Marajó ainda fazia parte do continente e era
atravessado pelo Rio Tocantins, que desaguava no Amazonas. Uma falha sísmica
criou o Rio Pará e levou o Tocantins a correr pelo caminho atual, em direção ao
Nordeste, isolando e criando a Ilha. Miranda destaca em seu trabalho para um
dado importantíssimo de que a floresta amazônica é relativamente recente, antes
restrita ao longo dos rios e eixos de drenagem. Quem quiser saber mais da
história desconhecida da Amazônia, leia o livro “Quando o Amazonas corria para
o Pacífico”, de Evaristo Eduardo de Miranda. Sobre essa história fascinante
basta essas informações para enriquecer o processo histórico amazônico, não sem
antes deixar registrado para o desespero dos ambientalistas que em cerca de cem
anos, entre o final do século XIX e a década de sessenta no século XX,
noruegueses e ingleses conseguiram dizimar as populações de focas e baleias da
Antártida, graças ao barco a motor e ao canhão disparador de arpões. O óleo das
baleias iluminava as cidades europeias, os casacos de pele de foca eram moda e
um massacre devastador de mamíferos marinhos ocorria na Antártida. Apesar da dizimação
dos mamíferos, nada mudou na Terra.
Destaque
para alguns “pesquisadores e cientistas” que evidenciam o interesse pela
borracha no tempo. Um exército de cientistas que facilitaram saques da
diversificada biodiversidade amazônica, visitada a título de enriquecer a
ciência (deles).

Charles-Marie
de La Condamine, francês, com dez cientistas e uma considerável equipe visitou
a Amazônia em 1736. Levou informações sobre diversas plantas medicinais,
inclusive o quinino, e espantou-se com as propriedades da borracha – substância
que se referiu como “a resina chamada cahout-chou”: “o que lhe dá notável
elasticidade”; La Condamine escreveu no seu diário: é como os índios fazem
garrafas que não são fáceis de quebrar, botas e pratos fundos que podem se
tornar rasos, e quando não mais sob pressão, readquirem o antigo formato.
Observou e admirou as propriedades do curare e outros venenos da floresta. A
borracha que Condamine levou na sua bagagem para a Europa provocou grande
interesse devido as suas virtudes. Interesse acima de tudo de ordem econômico.
Cristóvão Colombo, antes do descobrimento do Brasil (1500), também conheceu a
borracha em mãos de índios que brincavam com uma “bola que pulava”. Para eleger
uma data referencial do interesse pela borracha como matéria-prima, vou tomar
como ponto de partida a data de 1736, sem, contudo, deixar de considerar
qualquer data anterior. A data 1736 vai servir para medir o tempo em que a
Amazônia, de fato, teve seu espaço dominado através da produção da borracha,
assim como a montagem da civilização amazônica, ou seja, 176 anos (1736 a 1912,
data que considero como a da entrada no mercado da borracha produzida em
seringais cultivados de colônias asiáticas).
Em
meados do século XIX, chegou à Amazônia um trio de naturalistas ingleses,
Alfred Russel Wallace, o entomologista Henry Walter Bates, e Richard Spruce um
botânico. Bates coletou mais de 14 mil espécies de insetos e animais, oito mil
delas inteiramente novas para a ciência, despachando-as para Londres. Spruce
produziu artigos em The Phytologist, que passou a ser publicado a partir de
1841, e despertaram a atenção dos curadores dos Jardins Kew. Através de um
deles, Sir William Hooker, Spruce conheceu o botânico colecionador George
Benthan. Com essas expedições e envolvendo Kew (local onde foram enviadas por
Wickam as sementes da seringueira), pode-se estabelecer o projeto de dominação
da atividade econômica da borracha. Uma das mais extensas investigações
científicas da Amazônia, a realizada por um indivíduo, Spruce, num total de
quinze anos. Seu trabalho despertou o interesse de outros exploradores, sendo a
Amazônia reconhecida como a Meca dos botânicos do mundo inteiro, ou seja, em
outras palavras a Meca do saque programado e consentido, uma vez que nenhum
desses trabalhos exploratórios trouxe benefício econômico e social à Amazônia e
aos brasileiros. Spruce descrevendo as características da floresta expos a
vulnerabilidade da região, por maquiavelismo ou burrice, o que contribuiu para
travar o desenvolvimento da agricultura por longo período. Entretanto, Spruce
era um “apaixonado” pela Amazônia, chegando a concordar com Sir Walter Raleigh,
que convenceu a Rainha Elizabeth I de que a Inglaterra deveria destruir e
substituir o império americano espanhol, porém mais tarde caiu em desgraça
junto ao seu sucessor, Jaime I, por não ter encontrado ouro na Guiana. “Quantas
vezes” escreveu Spruce, “tenho pena de a Inglaterra não possuir o magnífico
vale amazônico, em vez de ocupara Índia!”. “Se aquele idiota do Jaime, em vez
de prender Raleigh e depois mandar decapitá-lo, tivesse insistido e lhe
fornecesse navios, dinheiro e homens até conseguirem formar uma colônia
permanente num dos grandes rios americanos, não tenho dúvidas de que todo o
continente americano estaria hoje nas mãos dos ingleses”. Em 1864, Spruce
verificou mudança notável na Amazônia com o início da era da borracha, voltou à
Inglaterra, e morreu em 1893.
Armando Soares – economista

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