quarta-feira, 7 de março de 2018


Fordlândia – prova da burrice brasileira.


Por Armando Soares


“O silêncio é a única resposta que se deve dar aos tolos. Porque onde a ignorância fala a inteligência não dá palpites”.

Autor desconhecido


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                O projeto do americano Henry Ford no Pará serve para mostrar que não foram apenas os amazônidas paraenses os tolos nessa triste história da economia da borracha, erraram por ignorância ou má fé, governantes paraenses, governo brasileiro, e americanos. Como admitir que os assessores de Ford desconheciam o que os ingleses estavam fazendo, plantado seringueiras com sementes roubadas no Pará, em suas colônias do sudeste asiático, em áreas propícias ao plantio da seringueira, áreas chamadas de escape ambiental, que não favorecia o ataque do fungo que mata a seringueira? O desconhecimento desse detalhe técnico por parte dos assessores de Ford, foi determinante para o insucesso do projeto no Pará. Não fosse por esse erro técnico fatal, o Pará poderia ter outro cenário econômico, e não a estagnação econômica com a quebra da economia da borracha que se perpetuou até os nossos dias.


Além desse erro de competência técnica-agronômica, o investimento americano ficou contaminado pela corrupção e por uma mão-de-obra nativa preguiçosa e desonesta, a que se soma a total indiferença do governo estadual e federal no que diz respeito a técnica de plantio da seringueira. Greg Grandin, autor do livro Fordlândia, professor associado de história na Universidade de Nova York, faz conclusões que demonstra toda a sua ignorância sobre as verdadeiras causas do insucesso do projeto Ford, condenando a região amazônica para investimentos do porte realizado por Ford.


Os primeiros anos do projeto Ford, no Pará foram marcados por desperdícios desnecessários, por muita violência criminosas, e com alta taxa de mortalidade provocada por malária. A história do projeto tem a marca de lutas com facas, tumultos e greves permanentes. Lamentavelmente, para a infelicidade do paraense, o Pará, com destaque para o governo estadual e federal, a sociedade e trabalhadores, não estavam preparados para receber um projeto da dimensão e importância econômica de Fordlândia; mesmo considerando o insucesso agronômico, tivessem o governo estadual e federal tomado as rédeas do projeto, poderiam ter diversificado a atividade gumífera, dando, por exemplo, continuidade a inventividade de alguns técnicos americanos, que pela primeira vez no mundo, introduziram a técnica de enxertia de copa resistente ao ataque de fungos, o que poderia ter salvado o projeto agronômico.


Muita gente sem competência e sem conhecimento da causa, escreveram muito besteirol sobre o Projeto Fordlândia, afirmando com convicção que um “fungo” destruiu o sonho paraense e amazônico, jogando a região para uma estagnação secular. A verdade oculta, por má fé ou ignorância, nada tem a ver com o “fungo”, mas com a incompetência brasileira, o que resultou no Brasil desistir de investir no plantio da seringueira, abrindo mão dessa atividade para o enriquecimento ainda maior de ingleses, americanos, franceses, holandeses e outras nações. O Brasil, berço da seringueira, um dos maiores agentes econômicos do mundo, foi esquecido em favor da economia cafeeira, uma opção endocolonialista burra, que atesta a total falta de visão de nossas elites políticas e econômicas que justificam o atraso brasileiro.


 Tem uma razão para que Ford investisse no plantio de seringueira no Pará. A partir de julho de 1925, Flarvey Firestone havia se empenhado pessoalmente numa campanha para frustrar o cartel britânico de borracha proposto por Winston Churchill. Durante décadas a indústria americana tinha importado borracha, com poucos problemas, de colônias europeias, predominantemente, no Sudeste da Ásia. Mas quando os preços começaram a cair em 1919, Churchill, então secretário de Estado para as colônias, aprovou uma proposta para regular a produção da borracha bruta, a fim de assegurar que a oferta não ultrapassasse a demanda. Churchill foi então acusado como arqui-imperialista e protecionista. O secretário de Comércio Herbert Hoover estimulou o protesto, ele que seria em pouco tempo presidente acreditava que o fornecimento de borracha para a América era o ponto de estrangulamento da indústria em muitos aspectos mais crítico do que o petróleo. O petróleo podia ser encontrado em campos na Pensilvânia, em Oklahoma, Texas, na Califórnia, no México e Venezuela, ao alcance dos canhões americanos, mas a borracha vinha do outro lado do mundo, de plantações britânicas, holandesas e francesas no Sudeste da Ásia. O aumento e fome de borracha da indústria automobilística americana trouxe nova vida ao colonialismo europeu, que havia sido enfraquecido pela I Guerra Mundial. A receita da borracha – extraída e processada por mão-de-obra barata – ajudou Amsterdã, Londres e Paris a manter suas colônias na Indonésia, no Sri Lanka, na Malásia e na Indochina em seu sistema imperial, com os lucros da venda do látex ajudando a Inglaterra e a França a pagar suas dívidas de guerra. Hoover alertou os fabricantes americanos – não só de carros, mas de qualquer máquina que usasse látex – de que o suprimento era demasiado dependente da Europa imperialista e que eles poderiam estar sujeitos a uma “sobrecarga” superior a meio bilhão de dólares caso a Holanda e a França formassem o cartel proposto pelos britânicos. O secretario de Comércio recomendou que os fabricantes americanos investissem na produção de borracha na América Latina e financiassem expedições científicas à Amazônia. Vem daí o Projeto Fordlândia e não o besteirol que se tem escrito.


                Nesses exemplos dá para se sentir a importância econômica da borracha que o governo brasileiro ignorou preferindo assistir de camarote o benefício que a borracha propiciou para Inglaterra, França, Holanda e Alemanha. Uma história triste de um povo que insiste em ignorar suas riquezas preferindo guarda-las em reservas indígenas e florestais para servir aos interesses de estrangeiros. A crise brasileira que estamos assistindo e sofrendo hoje, tem uma razão de ser: ignorância, incompetência, desonestidade.

Armando Soares – economista


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