Fordlândia – prova da burrice
brasileira.
Por Armando Soares
“O silêncio é a única resposta
que se deve dar aos tolos. Porque onde a ignorância fala a inteligência não dá
palpites”.
Autor desconhecido

Autor desconhecido

O
projeto do americano Henry Ford no Pará serve para mostrar que não foram apenas
os amazônidas paraenses os tolos nessa triste história da economia da borracha,
erraram por ignorância ou má fé, governantes paraenses, governo brasileiro, e
americanos. Como admitir que os assessores de Ford desconheciam o que os
ingleses estavam fazendo, plantado seringueiras com sementes roubadas no Pará, em
suas colônias do sudeste asiático, em áreas propícias ao plantio da
seringueira, áreas chamadas de escape ambiental, que não favorecia o ataque do
fungo que mata a seringueira? O desconhecimento desse detalhe técnico por parte
dos assessores de Ford, foi determinante para o insucesso do projeto no Pará. Não
fosse por esse erro técnico fatal, o Pará poderia ter outro cenário econômico,
e não a estagnação econômica com a quebra da economia da borracha que se perpetuou
até os nossos dias.
Além desse erro de competência técnica-agronômica, o investimento americano ficou contaminado pela corrupção e por uma mão-de-obra nativa preguiçosa e desonesta, a que se soma a total indiferença do governo estadual e federal no que diz respeito a técnica de plantio da seringueira. Greg Grandin, autor do livro Fordlândia, professor associado de história na Universidade de Nova York, faz conclusões que demonstra toda a sua ignorância sobre as verdadeiras causas do insucesso do projeto Ford, condenando a região amazônica para investimentos do porte realizado por Ford.
Os primeiros
anos do projeto Ford, no Pará foram marcados por desperdícios desnecessários, por
muita violência criminosas, e com alta taxa de mortalidade provocada por malária.
A história do projeto tem a marca de lutas com facas, tumultos e greves
permanentes. Lamentavelmente, para a infelicidade do paraense, o Pará, com
destaque para o governo estadual e federal, a sociedade e trabalhadores, não
estavam preparados para receber um projeto da dimensão e importância econômica de
Fordlândia; mesmo considerando o insucesso agronômico, tivessem o governo
estadual e federal tomado as rédeas do projeto, poderiam ter diversificado a
atividade gumífera, dando, por exemplo, continuidade a inventividade de alguns
técnicos americanos, que pela primeira vez no mundo, introduziram a técnica de enxertia
de copa resistente ao ataque de fungos, o que poderia ter salvado o projeto
agronômico.
Muita gente
sem competência e sem conhecimento da causa, escreveram muito besteirol sobre o
Projeto Fordlândia, afirmando com convicção que um “fungo” destruiu o sonho
paraense e amazônico, jogando a região para uma estagnação secular. A verdade
oculta, por má fé ou ignorância, nada tem a ver com o “fungo”, mas com a
incompetência brasileira, o que resultou no Brasil desistir de investir no
plantio da seringueira, abrindo mão dessa atividade para o enriquecimento ainda
maior de ingleses, americanos, franceses, holandeses e outras nações. O Brasil,
berço da seringueira, um dos maiores agentes econômicos do mundo, foi esquecido
em favor da economia cafeeira, uma opção endocolonialista burra, que atesta a
total falta de visão de nossas elites políticas e econômicas que justificam o
atraso brasileiro.
Tem uma razão para que Ford investisse no
plantio de seringueira no Pará. A partir de julho de 1925, Flarvey Firestone
havia se empenhado pessoalmente numa campanha para frustrar o cartel britânico
de borracha proposto por Winston Churchill. Durante décadas a indústria
americana tinha importado borracha, com poucos problemas, de colônias
europeias, predominantemente, no Sudeste da Ásia. Mas quando os preços
começaram a cair em 1919, Churchill, então secretário de Estado para as
colônias, aprovou uma proposta para regular a produção da borracha bruta, a fim
de assegurar que a oferta não ultrapassasse a demanda. Churchill foi então
acusado como arqui-imperialista e protecionista. O secretário de Comércio
Herbert Hoover estimulou o protesto, ele que seria em pouco tempo presidente
acreditava que o fornecimento de borracha para a América era o ponto de
estrangulamento da indústria em muitos aspectos mais crítico do que o petróleo.
O petróleo podia ser encontrado em campos na Pensilvânia, em Oklahoma, Texas,
na Califórnia, no México e Venezuela, ao alcance dos canhões americanos, mas a
borracha vinha do outro lado do mundo, de plantações britânicas, holandesas e
francesas no Sudeste da Ásia. O aumento e fome de borracha da indústria
automobilística americana trouxe nova vida ao colonialismo europeu, que havia
sido enfraquecido pela I Guerra Mundial. A receita da borracha – extraída e
processada por mão-de-obra barata – ajudou Amsterdã, Londres e Paris a manter
suas colônias na Indonésia, no Sri Lanka, na Malásia e na Indochina em seu
sistema imperial, com os lucros da venda do látex ajudando a Inglaterra e a
França a pagar suas dívidas de guerra. Hoover alertou os fabricantes americanos
– não só de carros, mas de qualquer máquina que usasse látex – de que o
suprimento era demasiado dependente da Europa imperialista e que eles poderiam
estar sujeitos a uma “sobrecarga” superior a meio bilhão de dólares caso a
Holanda e a França formassem o cartel proposto pelos britânicos. O secretario
de Comércio recomendou que os fabricantes americanos investissem na produção de
borracha na América Latina e financiassem expedições científicas à Amazônia.
Vem daí o Projeto Fordlândia e não o besteirol que se tem escrito.
Nesses
exemplos dá para se sentir a importância econômica da borracha que o governo
brasileiro ignorou preferindo assistir de camarote o benefício que a borracha
propiciou para Inglaterra, França, Holanda e Alemanha. Uma história triste de
um povo que insiste em ignorar suas riquezas preferindo guarda-las em reservas indígenas
e florestais para servir aos interesses de estrangeiros. A crise brasileira que
estamos assistindo e sofrendo hoje, tem uma razão de ser: ignorância,
incompetência, desonestidade.
Armando Soares – economista
Armando Soares – economista

e-mail: teixeira.soares@uol.com.br
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