domingo, 19 de junho de 2016

O Primeiro Grande Saque Amazônico (III)


Por Armando Soares


                Dos livros que falam sobre a borracha, o produzido por Barbara Weinstein, “A Borracha na Amazônia: Expansão e Decadência (1850-1920)”, é o que mais respeito. Warren Dean, que escreveu “A Luta Pela Borracha No Brasil”, considerado por muitos brasileiros e estrangeiros o melhor, tripudia dos amazônidas quando afirma que os amazônidas e brasileiros foram derrotados por um “fungo”, o que não é verdade. Essa afirmação é apenas uma mentira para esconder de uma maneira bandida, das duas uma, a verdade histórica ou total ignorância. Dean deu mais ênfase aos fatores biológicos que dificultaram o cultivo da seringueira no seu habitat natural (Amazônia), o que para quem está inserido no contexto histórico da borracha, é o mesmo que elogiar os ingleses e diminuir os brasileiros. Dean desconsiderou questões importantes como a oferta de capital, a resistência da sociedade, dos seringueiros e a política governamental – questões que seriam resolvidos uma vez superados os obstáculos biológicos. O argumento hipotético de Dean pouco contribuiu para melhor compreensão da triste experiência do processo histórico da produção de borracha da Amazônia. Outros livros que tratam da Amazônia e da borracha, como “O Complexo da Amazônia” de Djalma Batista, têm coisas muito interessantes dos cenários amazônicos; “O Ladrão no Fim do Mundo”, de Joe Jackson, cujo título diz é próprio de um “ser superior”, se concentra na transferência de sementes de seringueira, que sabemos não foi roubo, traz informações importantes sobre esse período preparatório da transferência da borracha para o sudeste asiático, sem nenhuma reação da sociedade amazônica, do governo brasileiro e de sua elite econômica e política; “Fordlândia – Ascensão e Queda da Cidade Esquecida de Henry Ford na Selva”, de Greg Grandin, é muito interessante para que amazônidas e brasileiros conheçam um pouco da estupidez amazônica e brasileira e de falta de inteligência dos técnicos americanos, causa maior do fracasso do projeto; “Formação Histórica do Acre”, de Leandro Tocantins, tem registros importantes sobre a questão da borracha, da luta dos seringueiros para a conquista do Acre, pertencente à Bolívia e outros episódios que provam o desprezo do governo brasileiro em relação à Amazônia. Infelizmente não vou poder comentar sobre a imensa e rica fonte bibliográfica que permite que se tenha uma visão da verdadeira história da borracha e da montagem da sofrida e esquecida civilização amazônica, a qual, entretanto, será citada em espaço próprio. Da leitura dos livros citados e de outros, examinando a bibliografia, salta a vista que o Brasil não tem memória de períodos econômicos significativos da Amazônia. Toda a memória brasileira sobre esse período histórico da questão da borracha amazônica desapareceu no Ministério da Indústria e Comércio, no Banco da Amazônia, nos extintos Conselho Nacional da Borracha (CNB, Superintendência da Borracha - SUDHEVEA), e não sei dizer se o Ministério das Relações Exteriores ainda guarda a memória da participação do Brasil na II Guerra Mundial fornecedora que foi da borracha que abasteceu as indústrias de pneus e artefatos de borracha para a vitória dos exércitos aliados. A falta de memória no Brasil é causa de políticas públicas equivocadas que afundam mais as economias regionais, como é exemplo a Amazônia.

                Cenários da primeira fase da produção de borracha mostram as dificuldades de se produzir borracha nativa e método de produção imprópria que prejudicavam a saúde do seringueiro, destruíam o painel e encurtavam a vida da seringueira e sua produtividade. Fase que mostra o trabalho hercúleo de nordestino na missão de tornar a floresta uma importante célula econômica e de montar uma civilização de uma parte do território brasileiro ignorado e que vinha servindo apenas para saque de produtos de sua biodiversidade.










Uma série de fotos que mostram a sangria da seringueira nativa, o processo de defumação do látex, o processo de beneficiamento da borracha, a derrubada da árvore de caucho para produção de bola de golfe e uma seringueira nativa. Hevea brasilienses, a seringueira, célula de desenvolvimento que criou nações ricas, aumentou a fortuna dos ingleses, americanos e europeus e deixou a Amazônia estagnada por traição e incompetência brasileira.

                Apesar de suas muitas especiarias, castanhas, óleos, e madeiras, a Amazônia continuou a ser, comercialmente, um lugar atrasado até o momento em que a inaudita demanda do mundo industrializado pela borracha nativa tornou lucrativa a extração em larga escala. A Amazônia antes da borracha era apenas uma floresta com poucos núcleos urbanos e aldeias interioranas que se sustentava de especiarias, sem escala econômica capaz de sustentar o custo amazônico.

                A economia amazônica até o surgimento da borracha sobrevivia das práticas comerciais desenvolvidas pelos portugueses na era colonial. O negócio da borracha de início não destruiu as relações da produção existente, antes consolidou modos tradicionais de extração e troca (economia extrativista). O modelo de comercialização que se desenvolveu com a expansão da atividade econômica da borracha, apresentou em comparação ao modelo colonial, um grau incomum de complexidade e de sofisticação. A borracha passava por meia dúzia de mãos diferentes antes de chegar ao seu destino final - o fabricante. Isso sem incluir os importadores e os banqueiros, que não lidavam diretamente com a borracha, mas eram essenciais como fornecedores de bens, crédito e moeda estrangeira. O segmento mais baixo dessa pirâmide era o seringueiro – trabalhador por conta própria que se embrenhava na floresta e coletava o látex para através da defumação produzir a borracha defumada. Um seringueiro era responsável por duas “estradas” de seringueiras, em que trabalhava em dias alternados. Essas “estradas” tinham normalmente a forma de uma alça, com um traçado que mal se percebia, cada uma delas ligando entre si de cem a duzentas seringueiras. No início de cada dia o seringueiro saia para trabalhar seguindo uma rota elíptica formada pela “estrada”, chegava a sua cabana, onde comia a primeira refeição, ao meio-dia, fazia a sua sesta, em seguida, refazia o mesmo percurso para coletar o látex e retornava à cabana para finalizar a tarefa com a defumação (coagulação do látex) para produzir a borracha (péla). No sábado, ou no domingo, o seringueiro arrendatário do seringal de outro seringueiro mais abastado, chegado a mais tempo do nordeste, entregava o que produzia na semana ou no mês, no “barracão”, uma espécie de central de escoamento da borracha, onde vendia sua borracha e se abastecia de gêneros e ferramentas que necessitava produtos trazidos até o “barracão” pelo “aviador”, nome dado ao comerciante que era responsável pelo escoamento da borracha até Manaus e Belém, como também garantia o suprimento de gêneros e ferramentas para o trabalho da produção de borracha. Tudo era pago em dinheiro e alguma parte em mercadorias. Os barcos que levavam a borracha para Manaus e Belém eram de propriedade da Amazon Steam Navigation Company, subsidiado pelo estado, ou uma grande companhia estrangeira. A “casa aviadora” era o elo mais importante da cadeia comercial interna, da Amazônia, tanto pela sua posição central quanto de suas múltiplas funções. Essas “casas aviadoras” negociavam a borracha com as casas importadoras, e eram elas que vendiam as mercadorias para serem passadas aos negociantes do vilarejo, ao “regatão” e ao seringueiro. Eram também essas casas aviadoras que providenciavam o transporte e a distribuição dos retirantes que fugiam da seca e da fome do Nordeste para trabalhar nos seringais. Esses comerciantes ou casas aviadoras também arranjavam dinheiro em bancos locais, quer para suplementar os adiantamentos feitos pelas companhias importadoras, quer para financiar compras mais vultosas, como barcos a vapor, instalações para embarcadouros, ou armazéns. Das mãos das casas aviadoras, a borracha passava para as casas exportadoras. 

A transação podia ser feita em moeda sonante ou em consignação, caso em que a firma aviadora detinha a propriedade da borracha, pagando ao exportador na base da comissão, entretanto, o mais habitual era que o exportador adquirisse de vez a borracha. Geralmente, a firma exportadora atuava como representante de companhias compradoras de borracha de Nova York ou Liverpool. Ao chegar ao porto de uma nação industrializada, a borracha se tornava propriedade da firma estrangeira que a comprara – o último elo da cadeia produtiva ou o penúltimo considerando que muitas indústrias consumidoras compravam de importadores. O que se verifica na descrição da cadeia produtiva da borracha nativa amazônica, e que está bem transparente, é que na primeira fase da exploração da borracha, já tinha sido montado uma estrutura de domínio estrangeiro desde a produção até o consumo. O domínio era de quem determinava o preço nos grandes centros do exterior, como Londres e Nova York. A não ser em circunstâncias incomuns, o cliente estrangeiro tinha condições de dar a última palavra quanto aos preços.


Armando Soares – economista



                

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