terça-feira, 14 de abril de 2015

12 de abril e a Lei da Ordem Espontânea

Hayek IL

O socialismo erra em tudo, mas talvez todos os seus erros possam ser resumidos na crença de que a ordem pode e deve ser planejada. Como já disse David Hume, “Todos os planos de governo que pressupõem uma grande reforma na conduta humana são fantasiosos” − uma fantasia que sai muito cara quando experimentada.

A Teoria da Ordem Espontânea, primeiramente descrita pelo filósofo taoista Zhuangzi (século IV a.C ) e posteriormente explorada por tantos outros pensadores como Proudhon, Hayek e Rothbard, diz que a ordem é resultado da ação de incontáveis indivíduos agindo por si mesmos, dispersos e movidos por interesses e sob condições particulares, o que direciona o desenvolvimento de uma sociedade; ou simplesmente que a ordem é resultado da liberdade, não o contrário, como prega o socialismo.

Um bom exercício de raciocínio para se entender isso é analisarmos o desenvolvimento das línguas. Novas palavras surgem, desaparecem ou se estabelecem a despeito de toda e qualquer decisão acadêmica ou governamental. A academia tenta impor normas, dicionários e estilos enquanto, nas ruas, pessoas criam e consolidam expressões, novos significados e novas linguagens. Um governo pode proibir que empresas adotem nomes estrangeiros para si mesmas ou para seus produtos, mas nunca conseguiria impor uma forma pela qual as pessoas devem se comunicar no dia a dia. A língua portuguesa é um ótimo exemplo do quanto a Teoria da Ordem Espontânea – que se apresenta como Lei − está acima de qualquer controle central.

“ Señor Posto que o capitam moor desta frota a asy os outros capitaães screpuam a vossa alteza a noua do achamento desta vossa terra noua que se ora nesta nauegaçam achou. nom leixarey também de dar disso minha comta a vossa alteza asy como eu milhor poder ajmda que pera o bem contar e falar o sabia pior que todos fazer./ pero tome vossa alteza minha jnoramcia por boa vomtade.”; são as duas primeiras frases da Carta de Pero Vaz de Caminha sobre a descoberta desse rebolante paraíso tropical.

A transformação da língua portuguesa se deu por meio de incontáveis interações voluntárias entre indivíduos, o que remete a TODAS as inovações tecnológicas que tornaram a vida humana melhor. Nada do que nos cerca foi obra de algum governo. O único papel do Estado no desenvolvimento humano foi o de regulador das liberdades,  tendo se desenvolvido mais as sociedades que usufruíram de mais liberdade.

A existência de uma COISA chamada Facebook reflete muito bem o poder da liberdade. O Facebook é, em essência, um ambiente virtual de interações voluntárias. Escolhemos “amigos”, escolhemos páginas, escolhemos assuntos, nos manifestamos e tomamos consciência do que os outros pensam; e o conjunto disso tudo molda a cultura, a economia e a postura da sociedade diante do Estado e de si mesma. Cada indivíduo, à sua maneira e movido por seus próprios interesses, contribui no ininterrupto processo de Ordem Espontânea que, de tão forte, extravasa o ambiente virtual e vai para a rua.

Hoje aconteceram, em todo o Brasil, manifestações contra Dilma e contra o PT. A perplexidade dos socialistas se baseia na incapacidade de enxergar que pessoas, por si mesmas e a partir de interesses particulares, podem trabalhar em função de objetivos coletivos. Os petistas, assumidos ou não, não conseguem reconhecer que indivíduos, sem estar sob qualquer comando central, podem tomar iniciativas próprias, no caso, ir à rua compor uma massa de milhões de cidadãos.

Houve, obviamente, pequenos “starts” ao longo desses últimos anos. Primeiro, com meia dúzia de corajosos jornalistas denunciando os absurdos do PT. Depois, pessoas comuns manifestando-se nas mídias sociais, motivando tímidos protestos numa ou noutra cidade, mas que ofereceram a muitas outras pessoas o embasamento intelectual e cívico necessários para se convencerem de que, sim, há razão para a revolta, indivíduos e sociedade têm o direito de expressá-la e ferramentas legais para, pelo menos, tentar um caminho melhor por meio de um novo governo.

Antes que digam que o papel da mídia tem fundamental importância na manipulação da opinião pública, lembro que se fosse verdade tal afirmação, Lula não teria sido reeleito depois da massiva cobertura da imprensa sobre o Mensalão. Dilma não existiria e o PT já estaria extinto. A mídia funciona como qualquer empresa de publicidade capitalista. A notícia apresentada por um jornal ou revista só gera mudança de postura da sociedade se coincidir com outros fatores (no caso brasileiro, fatores econômicos); assim como um produto só faz sucesso no mercado quando agrada o consumidor, independentemente de quantos milhões de reais foram gastos em propaganda. A verdade é que se dependesse da maioria dos veículos de comunicação, não haveria nenhuma manifestação contra o governo.

Dias atrás, tive uma experiência muito gratificante, que me fez enxergar de forma mais íntima o poder de iniciativas individuais. Depois de assistir ao hangout entre Roberto Barricelli, Hélio Beltrão e Rodrigo Saraiva sobre as manifestações do dia 15 de março, quando um deles disse que pessoas na rua lhe perguntaram o significado do slogan “Menos Marx, Mais Mises”, resolvi fazer por minha conta um panfleto, de linguagem bem didática, sobre liberalismo. A ideia era disponibilizar o arquivo digital para que qualquer pessoa interessada pudesse baixar, imprimir, reproduzir e distribuir durante as manifestações de hoje. Minha expectativa era de que uma dúzia de amigos embarcasse na campanha. Para minha surpresa, centenas de pessoas que eu não conheço compartilharam, baixaram e também por conta própria imprimiram, reproduziram e distribuíram. Houve quem mandasse rodar 10 mil panfletos! Logo que publiquei, alguém comentou elogiando a iniciativa. Respondi: “Iniciativas simples, promovidas por indivíduos dispersos pela sociedade, é que fazem as verdadeiras revoluções, sem guilhotinas, sem linchamentos, sem “paredón”. Logo em seguida, outro sujeito escreveu apenas… “Hayek!”. Exatamente! Nunca as ideias liberais foram tão claras para mim. É o poder do indivíduo, trabalhando por si mesmo ou em associações voluntárias, que dita os rumos de um país. O Movimento Brasil Livre e o Movimento Vem Pra Rua têm tanto poder sobre essas manifestações quanto a Estátua da Liberdade sobre o povo americano − são apenas símbolos. As duas últimas manifestações representam a Ordem Espontânea redirecionando a sociedade brasileira.
Poucos se deram conta de que as manifestações já conquistaram dois grandes resultados: A experiência “parlamentarista” das últimas semanas, com o Congresso Nacional deixando Dilma, Lula e o PT de lado para aprovar o projeto-base da lei da Terceirização, a única medida, em mais de uma década, que realmente oferecerá um legado positivo ao país; pela primeira vez na história do Brasil, as ideias liberais estão ecoando nas ruas através dos líderes dos movimentos e principalmente pelo interesse de pessoas comuns.




Sobre o autor

João Cesar de Melo
Arquiteto, artista plástico e escritor. Escreveu o livro “Natureza Capital”.

Matéria retirada do website do Instituto Liberal

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