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terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Tres Hombres: a nau ecologicamente correta. Será?


Um veleiro pretende conclamar a navegação comercial ao retorno da vela como meio de propulsão ecologicamente correta. Será viável? Será mesmo ecologicamente mais eficiente do que os navios mercantes movidos a combustíveis fósseis?

Por Klauber Cristofen Pires

Nesta virada de ano aportou em Belém o veleiro holandês "Tres Hombres",  que alega ser o único navio cargueiro a vela no mundo em operação. 


A centenária embarcação partiu da Holanda no dia 18 de outubro, com destino ao Brasil, tendo antes embarcado bacalhau na Noruega, e atracou no cais de Belém no dia 28 de dezembro de 2013, onde permaneceu até o dia 04 de janeiro de 2014.

Eu aproveitei para conhecer a embarcação, tirar algumas fotos e conhecer a sua história, que ora transmito aos meus diletos leitores, com meus comentários.


Segundo seus armadores, sua missão é agir como uma embaixada para a navegação sustentável, promovendo o retorno à navegação comercial à vela, livre de emissão de gases estufa.

Os leitores do LIBERTATUM sabem do meu apreço por embarcações, tanto que o blog é todo decorado com a temática náutica, ostentando principalmente no cabeçalho um lindo veleiro clipper

Isto tem um motivo simbólico: remete-me à minha história pessoal, porque sou formado como oficial mercante, tendo navegado por cerca de oito anos, e também porque navios simbolizam o comércio, que é a manifestação mais representativa da liberdade, da civilidade, da paz e da colaboração entre os povos para a prosperidade mútua.

Guardo especial carinho com os navios a vela, pois estes  lembram a prevalecente atmosfera liberal que o mundo respirou entre os séculos XVIII e XIX, quando este era o meio de propulsão até então mais usado, por mais eficiente. 

Mas aí é que os ventos mudam: o tempo passou, e naturalmente os meios de propulsão a carvão, alimentando as máquinas alternativas ou turbinas dos navios a vapor, e posteriormente a óleo combustível, impulsionando os pistões  de motores de combustão interna, substituíram completamente a navegação comercial.

Agora vejamos o caso do veleiro Três Hombres: este barco possui uma capacidade de carga de meras 35 toneladas e  é operado por 18 tripulantes, sendo que 11 deles pagaram o equivalente a R$ 24.000,00 para participar da viagem!

Oras, os mais modernos navios mercantes do mundo têm capacidade para mais de 100 mil toneladas e são operados em média por não mais que 12 a 15 tripulantes, sendo que em alguns a dotação não passa de 6 a 8.  

Da mesma forma, o método de carga e descarga dos modernos navios mercantes envolve equipamentos de carga e descarga de granéis ou de containers capazes de enchê-los ou esvaziá-los em poucas horas, enquanto que no Tres Hombres é carga é estocada de uma forma artesanal, isto é, sob o assoalho do convés, demandando muito tempo e operação manual, bem como sujeitando-a à condições indesejáveis de insalubridade. 

Por exemplo, o Tres Hombres anunciou que desejava   comprar café e chocolate durante sua estadia aqui no Brasil. O Brasil exporta chocolate, que é mantido em exatos 14º Celsius em containers climatizados controlados por computador nos navios mercantes. Como chegará ao destino o chocolate trazido a bordo do Tres Hombres depois de passar por calor e água da chuva e do mar?

Vamos supor que o veleiro embaixador da navegação sustentável livre de emissão de gases consiga lograr o seu intento de chamar a navegação comercial do mundo ao retorno dos navios veleiros, de modo que que uma empresa qualquer tenha armado um veleiro com uma capacidade de carga dez vezes maior, isto é, de 350 toneladas, ao invés de 35, mantendo os atuais 18 tripulantes. Aqui informo aos leitores que seria praticamente impossível construir navios com a capacidade de carga dos navios mercantes atuais, porque há um limite para a instalação do velame capaz de locomover tanto peso. 

Se o compararmos com um pequeno navio mercante movido a óleo combustível de apenas 35.000 toneladas, também com 18 tripulantes, e aqui chamo a atenção que navios deste tamanho já estão em desuso, porque são economicamente pouco rentáveis, na verdade praticamente inviáveis, teríamos de concluir que seriam necessários 100 navios veleiros para fazer o seu serviço, guarnecidos por 1800 tripulantes!

Agora vamos ver mesmo se este navio seria tão mais ecologicamente correto que o seu concorrente movido a combustão interna: estamos aqui falando de mais material, porque 100 navios veleiros de 350 toneladas de carga certamente consumiriam mais aço, tecido para as velas e outros materiais do que um único navio de 35.000 toneladas de carga. Certamente, o esforço em produzir mais material e mais embarcações sugere um consumo maior de energia.

Porém, muito mais do que isto, imagine que 100 veleiros necessitam sustentar a vida não apenas de 18 tripulantes e suas respectivas famílias, mas então de 1.800 tripulantes e suas famílias! Quanto isto custará em termos de consumo?

Vale ainda lembrar que os modernos navios mercantes possuem sistemas de tratamento antiséptico e de dejetos. O Tres Hombres, possuindo apenas dois pequenos painéis solares e dois também pequenos geradores eólicos instalados na popa, certamente não possui energia para mover tais equipamentos, restringindo seu uso a alguma iluminação e aos equipamentos de orientação e navegação. Então, será que os marinheiros estão jogando seus cocôs e o lixo - pelo menos o lixo orgânico - na água?

Concluindo: a proposta do Tres Hombres não passa de uma nefasta utopia, porque faz demagogia pretensamente ecologicamente correta desconsiderando o cálculo econômico! Sua viabilidade reside no fato de que a maior parte da população paga um bom dinheiro para participar da viagem. Se os marinheiros fossem todos assalariados, por mais baixos que fossem os salários, não haveria possibilidade nem mesmo de desamarrar os cabos lá na Holanda. 

Algumas experiências conceituais têm sido desenvolvidas, incluindo o uso de kites (espécie de parapentes), que ajudam a economizar combustível, ou com painéis solares. Talvez no futuro a tecnologia permita que utilizemos fontes de energia mais limpas, incluindo, quem sabe, a força dos ventos, mas para que venham a ser implementadas faz-se necessário que se tornem economicamente viáveis. 

Como tenho dito, se alguém quiser ser realmente ecologicamente correto, deve prioritariamente pensar em ser economicamente correto. O próprio conceito de economia consiste justamente em produzir cada vez mais com o dispêndio cada vez menor de insumos. O óleo combustível é extremamente pesado e poluente, mas consegue carregar uma capacidade de carga que torna a sua emissão de gases menos prejudicial do que o consumo de energia requerido para a navegação a vela tal como foi praticada no passado, e esta foi simplesmente a razão pela qual tomou seu lugar, ou o comércio mundial ainda permaneceria sendo transportado por veleiros. 

Alguns links interessantes sobre o veleiro Tres Hombres:





segunda-feira, 14 de abril de 2008

Comércio Justo é Negócio Livre!


Por Klauber Cristofen Pires

Há uns dois anos atrás, participei de um curso de formação de gerentes, conduzido por uma das empresas de consultoria e ensino empresarial mais destacadas do país. O lema da empresa era “por um mundo melhor”, e a tônica da sua mensagem assentava-se no conceito de “comércio justo” e na negociação “ganha-ganha”.

Modismos vindos da área de Administração são comuns. Muitas vezes, conceitos simples, até mesmo domésticos, são empacotados em embalagens que os façam parecer fórmulas inéditas. O programa 5S foi um destes: por exemplo, meu tio-avô, que era carpinteiro, já mantinha sua oficina segundo os padrões de limpeza, organização e uso correto de suas ferramentas. Certamente, caprichoso como ele era, também não se perdoava por fazer um serviço malfeito, nem se acomodava com seus atuais conhecimentos, procurando, ao invés, sempre melhorar. Eureka! Simples, não? Porém, muitas empresas investiram pesado para contratar empresas de consultoria para repassar estes conceitos sob uma roupagem profissional e inovadora.

Enquanto estes produtos sejam vendidos como conceitos que proporcionem maior produtividade às empresas e um incremento na motivação de seus funcionários, não há uma maior preocupação de minha parte, que é defender um verdadeiro espírito capitalista e uma sociedade livre. Todavia, a pedra no caminho encontra-se hoje justamente nesta nova onda que anda ganhando terreno, inclusive com ampla contribuição da mídia.

Afinal, o que vem a ser o comércio dito “justo” bem como a negociação “ganha-ganha”? Comecemos pelo último. Consideremos, para tanto, uma sociedade livre, em que a produção de bens e serviços, bem como o exercício de qualquer trabalho, não esteja subordinado a quaisquer leis protecionistas ou trabalhistas, ou ainda, que tais restrições existam, mas de forma a não impedir ou restringir de forma considerável a livre-iniciativa.

Ora, o que podemos entender por uma negociação? Não será justamente o confronto de idéias, entre duas pessoas que detenham a posse de alguma coisa, para trocarem entre si? Se estas pessoas, de fato, detém a propriedade sobre seus bens ou sobre seus talentos, o que pode vir a determinar as suas decisões senão a própria vontade delas? Com a escravidão, a única opção de escolha do servo é morrer, haja vista que uma das partes está sob coação violenta. Fazer uma negociação, ao contrário, é justamente dialogar, chegar a um acordo; ocorre que, para que este seja justo, basta apenas que cada uma das partes procure alcançar o que lhe convém.

Todo negócio, considerado ex-ante, é vantajoso para ambas as partes. Ex-ante, porque, por exemplo, eu posso me arrepender – depois – do serviço de lanternagem que fizeram no meu carro; entretanto, mesmo este arrependimento não influencia no exercício de quaisquer outras negociações quanto ao fundamento que as rege, senão pelo detalhe, como o meu, que haverei de procurar uma nova oficina da próxima vez. A alternativa para que o comércio não seja vantajoso é a decisão das partes de não chegarem a um acordo. Neste caso, um permanece com o dinheiro, e o outro permanece com o seu bem ou com o uso de seu corpo.

Portanto, quando uma empresa de consultoria empresarial, particularmente uma que é ponta-de-lança no mundo atual dos negócios, sugere aos seus alunos que considerem a satisfação da outra parte como requisito para um bom negócio, talvez assim mais preocupada com um “mundo melhor” do que mais propriamente com a lucratividade da empresa que é sua cliente, na verdade, confessa sua ignorância sobre o fundamento da sociedade livre e pior, lança uma informação errônea e até mesmo preconceituosa, na medida em que parte do princípio que um dos interlocutores conheça de antemão e melhor os objetivos do outro, do que este mesmo!

Esta informação, disse acima e agora explico, torna-se errônea, no tanto que representar um preço falso, e daí, uma informação falsa ao planejamento de pessoas e empresas. Oportunamente, aqui, começamos a tratar do movimento pelo “comércio justo”. Pois, um dos pilares deste conceito antinatural (antinatural, por que tem entre seus corolários princípios firmados apenas arbitrariamente) é o de que o produtor primário (digamos, o agricultor) deve receber mais pelo seu produto, e que a figura do atravessador seja eliminada.

Que ele – o agricultor - deva receber mais, não há dúvida; certamente todos os agricultores merecem ganhar mais pelo trabalho que realizam. Assim também como eu e os professores, os borracheiros e quem mais trabalhe de forma honesta e dedicada. O problema é que o dinheiro não é uma medida fixa como são o peso, que medimos em quilogramas, ou o comprimento, que medimos por metro. O preço é um meio de troca, mas a sua medida, parafraseando o “Tio Patinhas”, depende de um “quaquilhão” de informações que nos chegam a todo instante, e que influenciam nossas escolhas, tais como, digamos, a de ficar com uma dentre várias marcas de feijão, ou, ao invés, de abster-se dele, substituindo-o por soja, se for o caso.)

Entretanto, se de forma arbitrária, os agricultores passarem a receber mais do que alcançariam em uma negociação honesta, o caos estará formado. Em primeiro lugar, a alta lucratividade resultante atrairá mais produtores, e o primeiro resultado visível disto serão silos atolados de alimentos sem compradores, e os coitados dos agricultores endividados e com um elefante branco em suas casas. Mais conseqüências desastrosas? A área utilizada para agricultura aumentará sem necessidade, e um segundo princípio do comércio justo, que é o de produzir sem prejudicar a natureza, irá pro brejo!

Mais ainda? Sem os atravessadores, estas figuras tão mal-entendidas pelos de mente marxista, as pessoas terão dificuldade de encontrar os produtos nas prateleiras nos supermercados, e terão que se deslocar até o produtor para adquirir-lhes os alimentos. Este deslocamento, feito de forma individual, custará um “zilhão” de vezes mais, o que aumentará, por tabela, o preço dos alimentos, simultaneamente a um aumento da poluição (imagine trocar um caminhão que suporte 60 toneladas por 60000 carros de pessoas que desejem comprar um quilo de feijão!). Ah não? É o próprio produtor que vai levar seus produtos até as feiras? Ahh certo, eu não sabia! Mas então isto significa que ele vai utilizar uma parte substancial do seu trabalho e de sua riqueza (terá que comprar e manter um caminhão, no mínimo) para vender, e não para produzir, e isto se refletirá no preço dos alimentos, que subirão – ainda mais!
Outro pilar do “comércio justo”, é o de o comerciante pagar corretamente seus impostos. Lá vêm de novo os esquerdistas a maltratar a língua! Pagar em dia os impostos não traduz justiça, mas honestidade! Quem não paga seus impostos é desonesto, não injusto! Quem não os paga deve ser processado e sofrer as penitências que a lei determinar, e isto não se confunde com qualquer campanha para um “comércio justo”.

Portanto, não há uma alternativa mais justa para o comércio livre. Sempre que o seu cliente enxergar vantagem em negociar com você ou com a sua empresa, ele o fará. Há que se prestar atenção a vantagens que muitas vezes não se encontram no papel, mas são fundamentais para o sucesso de uma empresa: bom atendimento, presteza em solucionar os problemas dos clientes, confiança, talento e criatividade são itens que pesam nas escolhas para a formalização de um bom negócio, mas que não entram em planilhas de composição de custos. Estes conceitos podem, muito bem, serem transmitidos como integrantes de uma honrosa e próspera relação comercial, sem se confundirem com um objetivo abstrato como o de procurar um mundo melhor ou o de procurar uma justiça, arbitrariamente definida, na condução das negociações.