quinta-feira, 2 de abril de 2015




Julgamento, tolerância e liberalismo

Just
por Andrew Cohen
É interessante discutir a respeito da tolerância. As ideias que as pessoas têm a respeito do tema são muitas e variadas. Uma ideia que surge frequentemente, recheada de uma variedade de termos, é a seguinte: “tolerância é uma política multiculturalista insossa, mas é basicamente algo bom porque as pessoas não deveriam julgar os outros”.
Existem (pelo menos) dois problemas aqui.
  1. Conceitualmente, não toleramos o que gostamos ou aprovamos. Eu não tolero a música de James Blunt. Eu gosto dela – muito. Se eu escuto a música de Britney Spears ou rap, pelo contrário, eu posso (com algum esforço) tolerá-la. Dito isso, a tolerância é possível apenas onde temos algum tipo de reação negativa e não há razão para duvidarmos de que em alguns casos essas reações serão completamente formadas de julgamentos. Eu suponho que o multiculturalistas não têm tais reações às culturas múltiplas que procuram incluir no seu diálogo.
  2. A própria ideia de que não deveríamos julgar os outros é por si mesma estranha. As pessoas são seres racionalmente autônomos. Como seres racionais, tendemos a avaliar as coisas à medida que somos expostos a elas – pelo menos as coisas que nos chamam a atenção (por qualquer motivo que seja). É isso que seres racionais fazem. Por exemplo, seres racionais não apenas percebem quando uma árvore cai no meio da estrada. Eles percebem a árvore caída e depois avaliam a situação para determinar o que fazer em seguida. Se eles percebem alguém com uma serra elétrica ao lado do tronco da árvore, eles naturalmente avaliarão a situação – talvez julgando que essa pessoa deve ter causado a queda da árvore por malícia ou estupidez, fazendo com que ela caísse no meio da estrada. As pessoas, na verdade, não podem evitar de julgar. Além do mais, nós queremos que as pessoas julguem. Eu não quero ler periódicos de filosofia cheios de coisas sem sentido; eu conto com os editores para julgarem os trabalhos que eles recebem e apenas publicarem os trabalhos de qualidade. Eu certamente quero que alguém (não necessariamente o estado) julgue a habilidade das pessoas que se dizem profissionais da medicina. E profissionais legais, e chefs. E... a lista continua. Nós não lemos coisas como relatórios ao consumidor ou guias de restaurantes sem razão. Queremos que alguém tenha feito o trabalho de julgamento.
Conclusão: tolerância não é uma agenda multiculturalista da esquerda. Saber se podemos ou devemos tolerar diferentes culturas requer o julgamento dessas culturas. Algumas vezes nós vamos reprovar ou nos opor a essas culturas e decidir que devemos tolerá-las. Da mesma maneira, vamos algumas vezes reprovar ou nos opor ao que outros indivíduos falam ou fazem. Em ambos os casos, isso envolve julgá-los. Em muitos casos (na maioria da vezes, pela minha experiência), teremos que tolerá-los se estamos verdadeiramente comprometidos com qualquer versão razoável do liberalismo.
Nós podemos, devemos e iremos julgar. Nós podemos ou não dizer algo baseado no julgamento. Algumas vezes – talvez, frequentemente – é sensato, educado ou até mesmo moralmente correto não o fazer. Mas essa é uma questão diferente. E, é claro, haverá muito casos quando nós aprovaremos ou gostaremos de uma pessoa ou cultura que julgamos. Nesses casos, não interferimos, mas não devemos confundi-los dizendo que os toleramos.
(Também acho que devemos ser claros conosco quando julgamos os outros – indivíduos ou culturas – por alguma base idiossincrática ou contra padrões morais objetivos. Deixo isso para discussão em outras ocasiões.)
* Publicado originalmente em The Bleeding Heart Libertarians.
Matéria extraída do website do Instituto Ordem Livre

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