Vou começar este texto por enfatizar a longuíssima marcha forçada que separa anualmente cada votação do salário mínimo, justamente para demonstrar quanta energia o país gasta para definir algo completamente infrutífero:
Por primeiro, são as equipes técnicas do governo a proporem aumentos segundo determinadas margens, com base em cálculos tão complicadissimos quanto arbitrários (chutes científicos), e então estas são submetidas ao crivo dos noticiários para que o governo faça uma avaliação da recepção popular. Lógico, os ventos também vão determinando o fluir da maré para cá ou para lá, e é por isto que as decisões têm de ser tomadas com calma, com muita calma: proximidade de eleições, crises externas, crises fiscais, crises energéticas, escândalos de corrupção e tantas outras coisas que, sob rigor absolutamente técnico, deveriam ser mantidas à distância de tal discussão. Depois virão os demais políticos com as suas emendas e os seus teatrismos para as câmaras. Todos querem posar de pai de um aumento do salário mínimo, não é mesmo? E se ele não vier, ou vier "pequenino assim, ó"? Isto não importa, desde que os falsos mártires tenham pranteado em jorros nas frentes das câmeras. O efeito desejado terá sido conseguido.

















